Excerto do Atlas de Miller de 1519.
A metade ocidental das ilhas do Sudeste Asiático é caoticamente retratada como um vasto labirinto, que pode ter sido assim desenhado de acordo com as intenções dos portugueses por forma a dissuadir os concorrentes de conhecerem o caminho para chegar às Molucas, as ilhas das especiarias.
Missão de resgate KUDA
[16 a 23 de Fevereiro 2020]
Alguns projectos são para ser mantidos em segredo até que se concretizem de facto. A missão de resgate Kuda (1) assumiu essa natureza.
A geografia prodigiosa da insulíndia criou obstáculos e desafios da dimensão do labirinto de Minotauro. Este foi o monstro que me atormentou durante um ano e que teria de vencer, o do humano formatado, corpo de homem e cabeça de burocrata. Um monstro terrível e difícil de vencer porque cego e intransigente.
Apenas actuando sobre as fragilidades que na humana matriz se escondem poder-se-á derrotar este monstro insensível.
As suas armas são poderosas, leis, regulamentos, ordens e instruções específicas, detalhadas, minuciosas, invioláveis.
O arquipélago da Insulíndia estende-se num arco este-oeste de mais de 11.000 ilhas, no que corresponde, em termos políticos, à actual Indonésia, a que acresce uma extensão a nordeste de 7.000 ilhas, as Filipinas.
Um mundo insular.
Se pudéssemos identificar na nossa geografia global um espaço de proximidade com a Atlântida mítica, seria este mundo misto e profuso de ilhas, terra emersa e oceano, mares e profundidades submersas que lhe corresponderia. A sua extensão é superior à distância que vai da costa leste à costa oeste da América do Norte.
16 de Fevereiro [8:00] – Missão Kuda

Por forma a reduzir os custos de viagem, optei por apanhar o voo em Atambua, na parte indonésia da ilha de Timor. O percurso de Díli até lá realizei-o por terra, numa biscota (1) da Timor Travel. Cinco horas de viagem para percorrer a distância de 120 kms, com um custo de 15 USD.
Parti de Díli com uma hora de atraso. Chego à fronteira cansado e tenso e sou de imediato encaminhado para os procedimentos de imigração. Ao regressar ao local de parqueamento, constato que o autocarro, que me levaria até Atambua, tinha já partido de regresso a Díli. Informam-me, então, que teria de atravessar a pé a fronteira para a Indonésia, onde me esperava um outro autocarro que nos conduziria até ao aeroporto de Atambua.
Chego sem comer nada. Procuro um warung. A vendedora desperta-me para a urgência que eu não sabia que tinha. Serve-me somente um sumo enlatado, e insiste para que me dirija para a porta de embarque. Contrafeito, porquanto ainda faltavam quase 2 horas, percebo, espantado, que estavam já a embarcar. Entro a bordo sem entender porque se apressam. Quando percebo, o avião põe-se à pista para descolar, uma hora mais cedo. Mais tarde explicar-me-ão que o meu voo tinha sido cancelado e embarcaram no voo anterior os passageiros que estavam no aeroporto até então. Sorte a minha, em não fracassar, logo no início, e mais uma vez, o projecto de resgate da kuda nas Filipinas.
Um mês antes tinha também programado ir a Manila. Comprara bilhete de ida a partir de Bali, mas ao fazer o check-in, negaram-me o embarque por não ter bilhete de regresso. Insisti que iria mais tarde de avião provavelmente para outro destino ou que até podia vir por terra, apanhando o ferry para Sandakan, mas sem resultado. Tentei à pressa comprar o bilhete de regresso online mas, mais uma vez, os cartões com os seus múltiplos esquemas e chaves de activação de segurança, não me serviram para nada. Começo a pensar que não será má ideia voltar a andar com uma sacola cheia de dólares.
Em Kupang, como um folhado de atum para logo começar a minha abstinência de café.
Deixo Kupang para trás com a vista do seu amplo golfo. O porto e o Forte Concordia escondidos das intempéries do Índico pelas ilhas que se ajeitam à costa de Timor, protegendo-os.
Surabaya, um nasi goreng vegetariano. Um dia que as galinhas se extingam, parece-me que o mesmo destino conhecerão os asiáticos, sem a base da sua dieta alimentar.
Tenho que apanhar um táxi para me levar ao terminal internacional (75.000 rupias). O taxi contorna a pista metendo-se pelas ruas circulares de moderado tráfego e hotéis de baixo custo. Tão sem jeito estes aeroportos que não conectam directamente os passageiros entre voos domésticos e internacionais.
(1) Biscota, pequeno autocarro utilizado como transporte público nas ligações da capital com os municípios e à indonésia.
17 de Fevereiro [3:00] – Missão Kuda
Aturdido de sono, embarco em Singapura para Manila. O castigo dos bancos não recostáveis dos voos low cost, não permitem adormecer.
Decido ir directo a Zamboanga, Mindanao no extremo sul do país. Compro um sim card e um bilhete de ida na Cebu Pacific. Pequeno almoço: uma sande ovo e chá fresco.
Ao aproximar-me da área de espera do voo, mergulho numa crescente multidão de mortalhas andantes de que a custo se vêm os olhos para que nos confirmem não ser mortos vivos. O islão impera naquelas bandas do sul e a burka faz parte da paisagem no que se imagina de feminino.
Chego a Zamboanga no inicio da tarde. Procuro o hotel onde tomo um banho e estiro-me na cama. Não resisto e decido ir ao que me trazia, procurando a fachada helénica do Bureau of Customs Zamboanga, no porto da dita cidade, onde tinha chegado de moto fazia um ano, vindo de Sandakan na ilha de Bornéu.
Entro um corredor estreito ao fundo do qual está, atrás de uma pequena secretária que impede a passagem para os escritórios no piso superior, um guarda de serviço com o habitual livro de registo de visitas para assinar. Debruço-me para assinar quando, perplexo, vejo passar à frente do meu nariz para a gaveta que se abre e fecha uma e outra vez, pistolões dourados e prateados entregues pelos funcionários e clientes que vão chegando, como se brinquedos fossem. É então que reparo no anúncio que estava sobre a mesa, apelando a que todos depositassem ali a sua arma antes de acederem aos gabinetes de atendimento ao público.
Acolhem-me, dão-me a entender não serem conhecedores do problema que me tinha trazido. A pessoa com que tinha chegado, ainda em Díli, a contacto telefónico era uma estagiária que já não se encontrava a serviço. Os emails que tinha enviado perderam-se em caixas de correio electrónico que ninguém sabia existirem. Durante mais de meio ano insistira em mensagens e telefonemas sem sucesso.
E conto-lhes mais uma vez, no meu torpe inglês, a história já tantas vezes relatada, o motivo que me levara até eles depois de 5 voos e 5 horas de biscota desde Díli, Timor.
Em Janeiro de 2019, vindo de Sandakan, Sabah, na Malásia, depois de uma cansativa viagem de 24 horas e 400 km de mar, cheguei ao porto de Zamboanga na ilha de Mindanao, nas Filipinas, num ferry apinhado de passageiros e carga.
Em resultado do ataque a um dos ferrys da companhia que fazia a ligação entre Bornéu (Sandakan) e Mindanao (Zamboanga) por parte do movimento Abu Sayef, no qual foram sequestrados todos os tripulantes, as viagens de travessia do Mar de Sulu, tinham estado canceladas até então e era aquela a primeira operação depois do período de inactividade da linha.
Em Mindanao, região de forte influência islâmica, o governo decretara a lei marcial, por forma a fazer face à situação de insegurança e conflito que se vivia no território, pelas ações levadas a efeito pelo movimento Abu Sayef, Frente Moro e ISIS.
O ferry acostou ao cais quando descia a noite. De imediato entra a bordo uma brigada de combate ao narcotráfico e anti-terrorismo, que conduz as centenas de passageiros para o cais com os seus pertences, alinhando-nos em filas de revista com a patrulha de cães-polícia que farejavam a todos os sacos e malas. Deteve-se no meu capacete pousado no chão e de lá não saía, tentando detectar a imensidade de odores que se impregnaram numa viagem de meio mundo, entre os quais se incluía toda uma panóplia de insectos que contra ele se esmagaram.
Libertaram-nos da inspeção pressionados pela chuva que ensopava passageiros, militares e cães, conduzindo-nos para salas onde todos eram sujeitos a demorado inquérito. Percebendo o meu como um caso especial indicaram-me uma funcionária para me apoiar no tratamento das questões burocráticas associadas à minha entrada nas Filipinas. Agradeci.
Pediu-me todos os documentos, que prontamente lhe entreguei.
Disse-me que, no entretanto, fosse ao ferry buscar a moto e que voltasse a ter com ela.
Estava já à minha espera. Chovia intensamente. Sentado na Kuda, entregou-me numa mão o passaporte carimbado e na outra a pasta de elásticos com toda a documentação da moto, Carnet de Passage en Douanne, Livrete, etc.
Temendo que a chuva estragasse os documentos, abri a mala lateral e guardei-os.
Em jeito de despedida e quase gritando sob a chuva disse-me que tinha já excedido a hora de recolher obrigatório e, se não queria dormir ali no cais à chuva, que fosse rapidamente embora com a moto e procurasse um hotel nas proximidades.
Assim fiz. A 100 metros do portão de entrada do porto um pequeno hotel com lençóis lavados depois das esponjas-colchão dos beliches do ferry cheirando a vómito. No dia seguinte fiz-me à estrada e em 5 dias, cruzei os estreitos e as ilhas de Cebu, Negros, Panay e Mindore em direção a Luzon e à capital, Manila.
Um novo contrato de assessoria com o governo de Timor-Leste esperava-me passados dois dias.
Deixei a moto ao cuidado de um amigo que tinha casa em Manila e apanhei o voo de regresso.
Chegado a Timor, diligenciei para encontrar um despachante que me pudesse enviar a moto via marítima de Manila para Tóquio no Japão.
Passados 2 ou 3 meses, recebo um email do despachante, solicitando-me um comprovativo do registo de entrada da moto nas Filipinas. Procuro na pasta de documentação que trouxera comigo e nada. Tinha passado mais de 23 países e fronteiras. Revi do que me lembrava o que tinha então sucedido e perplexo concluía que a alfândega de Zamboanga não tinha carimbado o Carnet de Passage en Douane ou entregado qualquer outro registo comprovando a entrada da moto. A kuda estava ilegal nas Filipinas.
Remotamente, via emails e telefonemas pedi incessantemente que me ajudassem , no intento de resolver e corrigir aquela situação.
Estava agora ali pessoalmente para resolver em definitivo o problema.
Passavam-me de um a outro departamento, tendo que repetidamente contar a história que se fazia já velha e cansada e de cujo relato não conseguia já esconder o azedume.
O Account Director de Zamboanga, cujo nome decorara nas múltiplas tentativas anteriores que fizera para o contactar telefonicamente, Sr. Segundo Sigmund Freud, (o que se passaria na vida e cabeça dos pais para lhe dar a ele criança um nome assim?), estava ausente em seminários algures numa das ilhas do arquipélago de Sulu, diziam. O director do Departamento de Importações participava com ele nesses seminários, pelo que a única interlocutora que tinha para resolução do caso era a Directora do Departamento de Exportações.
Pediu-me que fosse à representação da companhia de navegação Alesson Shipping para que me passassem um documento que comprovasse que a moto tinha viajado como carga no navio, o Antonia, e que voltasse no dia seguinte.
18 de Fevereiro – Missão Kuda
Acordei cedo. Diziam-me que o escritório abria pelas 6 da manhã, mas afinal apenas para a venda de bilhetes, pelo que tive de esperar pela Directora em Zamboanga que chegou 3 horas mais tarde. Apresenta-se-me uma senhora trajando o hidjab islâmico. Kashy Yasin Ladjamalik. Digo o meu nome e aperto-lhe a mão que inadvertida me dá a cumprimentar, após o que, como em gesto de culpa leva à testa e ao peito. Natural de Basilan, casada com 4 filhos. Estudou em Sandakan. Gostaria de por lá ficar, confessa, mas a família obrigou-a a voltar. Releva o facto de ser a única islâmica entre todos os trabalhadores no escritório e de ter alcançado a chefia da representação em Zamboanga.
Simpatizo de imediato com a senhora, que diz fará tudo o que necessário para me ajudar. Pergunto se o ferry vem hoje de Sandakan, perspectivando a necessidade de lá voltar, como me aventaram no Bureau of Customs de Zamboanga (Alfândega de Zamboanga), ao que me responde que poderá chegar só no dia seguinte pois tiveram problemas com o embarque de 650 deportados filipinos que se encontravam ilegais na Malásia.
Uma nova escravatura. O capitalismo, a lei da procura e da oferta, a lei do melhor preço e a mão de obra barata levam alguns povos a submeter a sua força de trabalho a outros povos, ajudando-os a crescer ainda mais e a manter o seu estilo de vida muito acima daqueles outros que não foram bafejados pela sorte e têm, por nacionalidade, um desses países de baixa renda. A Malásia uma economia crescente, o tigre da Ásia, é um destino apetecível dos filipinos sem trabalho.
Na vinda de Sandakan para Zamboanga, um ano atrás, tivera como vizinhos do meu beliche um casal. Tristes e em lágrimas que não escondiam, regressavam às Filipinas expulsos da Malásia, expulsos do sonho de um futuro melhor.
Perspectivo as coisas. Eu estou apenas a tentar resolver um problema quando aqueles outros estão a lutar pela sua sobrevivência e o direito a uma vida melhor. Fustigo o meu ego e exijo-me humildade.
Um estafeta traz-me dos escritórios centrais, na cidade, o documento comprovativo de embarque (Bill of Landing). Despeço-me agradecendo e manifestando a minha alegria.
Regresso ao Bureau of Customs e apresento-lhes a minha conquista. Dizem-me que não será suficiente e que preciso obter um Certificado da companhia que inclua o número de chassis da moto e que com isso poderão então resolver o problema.
De volta aos escritórios da Aleson Shipping, volto a pedir à Directora que emita o referido certificado. Desdobra-se em telefonemas e não consegue convencer o assessor jurídico da empresa, até que, por último, decide ligar ao dono da Companhia, o big boss, que de imediato decide pela emissão do documento. Pulo de alegria. Temos que esperar. Ambos jejuamos sem almoço. Ela talvez por alguma regra do islão que ignoro, eu por ansiedade. Os termos do documento tardam a redação. Kashy retira-se para rezar. Tem uma reunião num qualquer departamento do governo alguns minutos mais tarde. Nervoso em saber se o certificado chegará em tempo. Lá fora, um tuk-tuk (triciclo taxi) apita por nós. Corremos à porta. É a assessora legal que, apressada, acena com a declaração. Fazemos uma foto rápida e despedimo-nos. Kashy junta-se à colega na boleia de Tuk-tuk para a reunião marcada e partem ainda acomodando os traseiros ao banco apertado.
De volta ao BoC Zamboanga, entrego a declaração a um dos funcionários, que se ausenta. Regressa à minha presença passado uma hora, dizendo que a mesma tinha a data errada e que a não podiam aceitar. De facto, onde deveria estar registado o ano 2019 como ano de entrada da moto nas Filipinas, tinham escrito 2020. Alterado e desgastado por todo aquele processo, elevo a voz dizendo que não faria mais nada, que muito já tinha feito em vir até ali, gastando uma pipa de massa, prescindindo do meu tempo e paciência para resolver um problema que era também deles. Afinal, a mota entrou no país sem que eles efetuassem o seu registo. Corrigissem, por tal, o erro, fizessem o que quisessem, mas queria ação e resultados da sua parte.
Um a um vão-se retirando os funcionários da sala, até que resta apenas uma moça jovem e simpática, estagiária, afinal a mais solicita, diligente e inteligente. Faz conversa e vai-me dizendo que eventualmente só no dia seguinte poderia ter pronta a declaração de entrada da alfândega. Chega o fim do dia e despeço-me, dizendo-lhe que voltarei no inicio da manhã e que tivessem tudo pronto, pois voltaria para Manila logo de seguida.
Regresso ao hotel. Numa das ruas de acesso ao porto, uma das muitas crianças de rua, por sono ou exaustão, dorme no chão nu do passeio, alheia ao transito ruidoso e às pessoas que se desviam para não pisar o seu corpo franzino. No extremo do braço estendido sobre o passeio, a mão aberta deixa escorregar para o chão as poucas moedas de cêntimos que amealhara. Detenho-me confuso, desperto por uma vontade genuína de agarrar nos braços aquela criança frágil e maltratada pela vida, tirá-la daquele destino cruel e sem sentido. Na esquina de um edifício um homem adulto observa os meus momentos de reflexão, alheio aos demais e imóvel no meio da rua. Percebo então que será alguém que tutela a criança, o próprio pai ou familiar, ou no pior dos cenários, um criminoso vil que vive à sua custa expondo-a à piedade e caridade dos que passam. Torturo-me de inquietação e cobardia por não ser capaz de mudar a vida deste e de tantos outros, dos muitos que sofrem no mundo, por não ter coragem de, num momento, fazer, num gesto, a diferença que, por um ser humano, se salvaria toda a humanidade. Retomo o meu caminho de adulto que sabe que o mundo tem destas injustiças e que a vida não pode ser boa para todos, e o destino, e o Deus ou as re-encarnações em vidas melhores… o blá, blá, blá para adormecer a minha consciência em vergonha e culpa. O meu coração já não chora como em menino. Revolta-se de ódio pelos homens e aos Deuses.
19 de Fevereiro [8:00] – Missão Kuda
A adjunta do Chefe de Departamento de Importação diz-me que não emitirão nenhum documento, que resolvesse o problema com a alfândega do porto de onde iria exportar a moto apresentando a Bill of Landing (declaração de embarque) da Aleson Shipping.
Insurjo-me, dizendo-lhes que não sairia daquele escritório sem um documento da alfândega de Zamboanga que me permitisse, sem problemas, tirar a moto do país, que iria contratar um advogado e exigir a abertura de um inquérito. Se eu falhara, eles falharam igualmente ao não verificarem a carga do ferry em cujo manifesto se incluía a kuda . De modo mais gravoso, saíra sem qualquer obstáculo da área do porto passando pelos portões de acesso ao perímetro e segurança. Esbaforido, argumentei ainda – como se poderia aceitar que debaixo do seu nariz pudessem deixar passar, sem realizar o trabalho pelo qual se justificam, a única moto que vinha no ferry e cujo único ocidental que descera ao cais era justamente o seu condutor?
Em ultimato rematei que tinha voo para Manila no inicio da tarde e que até à hora de almoço tinham de me dar a solução.
Apercebo-me do descontrolo a que me levaram e desperto no silêncio que se instalara. Os funcionários encabulados lançam-me olhares esbugalhados. Olho a porta para me certificar que o guarda de serviço não viera pôr cobro ao meu desaforo e encostar-me à cabeça os cinquenta pistolões prateados e dourados que tinha na gaveta.
Vendo-me possesso, a Directora de Exportação finalmente desiste e diz-me que carimbariam o Carnet de Passage, muito embora nas Filipinas não fosse obrigatória a sua apresentação, e que emitiriam um certificado assinado pelo oficial de alfândega que viera a bordo do ferry atestando que a moto estivera dentro do mesmo.
Não era tudo! Podia a moto ter naufragado no Mar de Sulu e antes de ter chegado ao cais, mas dou-me por satisfeito.
Sento na cadeira em frente à secretária da directora enquanto assina a declaração.
Apresenta-me o documento e o Carnet dizendo – o que lhe temos para oferecer é esta solução – ao que ainda em jeito de guerra lhe digo que em verdade não tem nada para me oferecer, eu é que lhe vim oferecer a oportunidade de corrigir um problema dos seus serviços.
Acabo de lançar mais esta farpa e os meus olhos fixam-se na leitura do primeiro de muitos cartões com versículos da bíblia que se empilham numa pequena caixa transparente. Ela retira-o e entrega-mo para que o possa ler.
“In your anger do not sin”
Do not let the sun go down while you are still angry, and do
not give the devil a foothold.
Ephesians 4:26-27 NIV
Ephesians 4:26-27 NIV
“Na tua ira, não peques”
Não deixes que o sol se ponha enquanto ainda estiveres com raiva, e não dês uma oportunidade ao diabo.
Desculpo-me por estar assim amargo, mas sem deixar de lhes dizer com um sorriso que a causa da minha amargura e raiva radica na sua inflexibilidade, na sua intransigência e relutância em retificar um erro que era também dos serviços que dirige.
Despeço-me sem mais e saio para a rua. Abandono o porto que me fez quase naufrago. Faço uma visita rápida ao Forte Pilar Shrine, construído durante a ocupação espanhola e que aloja o museu local. No exterior da muralha, a leste, sob a porta de entrada, uma estátua da virgem é local de peregrinação e grande devoção, a Nuestra Señora La Virgen del Pilar. A presença militar e religiosa dos conquistadores ali cravada na pedra testemunha a matriz com que se edificou a nação Filipina, numa área que antes como agora continua entregue ao islão.
Apanho um táxi para o aeroporto. Compro bilhete no primeiro voo a partir para Manila, pelas 16 horas. Ainda com tempo para finalmente almoçar.
Um helicóptero aterra na pista trazendo militares das ilhas de Sulu. O céu enche-se de cor num entardecer magnífico.
Chego a Manila já de noite.
No aeroporto, às pressas, identifico no Google Maps a sede da empresa de fretes All Transport Network com quem tinha tratado anteriormente para contratar o serviço de transporte da moto de barco para Tóquio.
Escolho um hotel nas proximidades, o Airport Travelodge que ficava na mesma área, Paranaque. Apanho um táxi no que me parecia uma corrida curta. Paranaque fica vizinho no ângulo convexo do triângulo das duas pistas do aeroporto, mas em verdade o percurso leva mais de uma hora com o tráfego e os enganos do motorista. No meio do transito parado, de súbito sem me dizer nada, o chofer sai do carro para, batemdo ao vidro de outro táxi mais à frente, pedir informações sobre o percurso a seguir. Quando me dou conta, o carro, destravado, começa a andar sozinho. Tenho tempo apenas de saltar do banco de trás para apanhar o travão de mão, puxando-o com toda a força e estancando o veículo a um palmo da traseira do da frente.
Num desvio mais à frente, engana-se na rua onde entrara e decide dar marcha atrás sem mesmo olhar o retrovisor. Com a sua manobra, quase atira com um tuck-tuck para a berma. Sorriem muito porque nada ficou partido e despedem-se amistosamente. Anseio que nada mais aconteça. Entramos por vielas e ruas manhosas, entre armazéns e edifícios escritório com ar de abandono. Finalmente, descobrimos o Hotel num anexo de edifício sem qualquer placa que o indicasse. Valia a certeza do Google Maps que nos assegurava que era ali mesmo. Segui acompanhado do condutor pelo corredor escuro que nos conduzia às traseiras do edifício para, mais uma vez, me desencantar. Tive vontade de regressar, de procurar outro hotel, mas sopesei o atribulado da viagem com uma noite mal dormida e deixei-me ficar. Abri a porta, não tinha mais que o espaço de uma cama, um lençol, papel de parede falseando tijoleira e uma ventoinha no teto. Saí para comer. Corri a rua perguntando-me se seria seguro andar por ali. A noite não inspirava confiança, até que encontrei uma loja de conveniência, “CU”, aberto 24 horas, dizia o letreiro luminoso. Chineses e prostitutas já passadas e sem préstimo gritavam músicas filipinas que acompanhavam num ecrã da esplanada exterior. Para comer, cabeças de pato cozinhadas de toda a maneira e feitio. Pedi vegetariano. Serviram-me um nodles duvidoso e 3 meias cenouras picantes. Vizinho paredes-meias com o Hotel, um edifício destaca-se dos restantes. Por incrível feito do destino, tinha ficado alojado mesmo ao lado da sede do All Transport Network
Subo ao quarto e adormeço com a satisfação de ter trazido comigo o pequeno almoço do dia seguinte, uma lata de café gelado.
20 de Fevereiro [8:30] – Missão Kuda
Recebe-me a directora da empresa. Dou-lhe a saber os resultados das minhas diligências junto da alfândega de Zamboanga. Pergunto-lhe, ansioso, se serão suficientes os documentos que me entregaram. Sem certezas, indica uma funcionária para me acompanhar à alfândega do Terminal Internacional de Contentores do Porto de Manila. Percorremos a cidade e entramos na zona portuária. Imensos tuk-tuk ladeiam a avenida do terminal. Na parede leste do cais escondendo o porto, amontoam-se periclitantes sobre as águas, como num mural de pobreza, casas em reboco.
Fácil de identificar a alfândega estandardizada, pela sua fachada helénica. Um amontoado de pessoas espera vez nos corredores, espreitando os postigos de acesso aos gabinetes de atendimento ao público.
Era dia de aniversário de um dos funcionários. Aguardamos pacientes durante uma hora que acabassem de comer. Os restaurantes locais levam ao serviço, em carrinhos de mão, carregados de panelas e tachos, os almoços que servem nas secretárias de trabalho aos funcionários. Quando terminam, afastam com os braços o caos de travessas e pratos, lambem os dedos besuntados de descascar marisco e de creme de bolo da aniversariante, arrumam o cabelo atrás das orelhas e puxam para serviço as resmas de documentos que esperavam o reinicio dos trabalhos.
Dão-me entrada no gabinete da diretora de exportação que me confirma serem suficientes os documentos para enviar a moto através do porto de Manila. Respiro satisfeito e aliviado, Manila está feito.
Inicialmente planeado o envio da moto por Manila, surgiu posteriormente a possibilidade de conciliar a viagem de volta ao mundo em moto com a viagem do Navio Escola Sagres, com passagem prevista pelo porto de Cebu, na sua rota de reconstituição da viagem de circum-navegação, durante o mês de junho de 2020.
Aguarda ainda confirmação, por parte do Chefe de Estado Maior General das Forças Armadas, Chefe de Estado Maior da Armada e Comando Naval, a possibilidade de embarcar no Sagres a moto em Cebu, local onde morreu em combate Magalhães, em direção a Tóquio. E porque a hierarquia militar não é brincadeira, resolvi certificar-me que não teria problemas com a alfândega naquela ilha. Neste propósito dirigi-me à direção nacional das alfândegas Filipinas e gabinete do Comissário, no distrito portuário de Manila.
Os procedimentos burocráticos de acesso a qualquer repartição pública são tremendos nas Filipinas, inimagináveis, sobretudo quando se pretende encontrar um big boss. Ao fim de muita explicação, lá consegui aceder ao edifício do gabinete do Comissário.
No hall de entrada, em manifestação de orgulho do serviço que prestam, uma série de fotos de grande tamanho a preto e branco, com detenção de estupefacientes, armas e, em grande plano, a imagem de um caterpillar esmagando mais de uma centena de motos alinhadas. Na legenda pode-se ler:
“One hundred sixteen motorcycles and six vehicles worth P34,71 million were destroyed on May 30, 2018 by the Bureau of Customs. President Rodrigo Duterte witnessed the destruction of 112 units of brand new Vespa scooters and used BMW motorcycle Harley Davidson, two units Triumph motorcycle …” .
Lembrei de ter visto na televisão este apontamento. Duterte, fazia bandeira na sua política de mudança o combate à corrupção e ao contrabando. Perguntei-me o que fazia eu ali. Se não era aquele o destino programado para a Kuda e apenas estava a dar a conhecer a sua existência clandestina nas Filipinas até então desconhecida destes algozes. Ponderei dar meia volta e zarpar. Surge entretanto um jovem e diligente assessor do Comissário que rapidamente percebe o alcance do projecto que me trouxera até ali e se prontifica a ajudar-me. Liga directamente para o Chefe de Exportações da Alfândega de Cebu, que começa por me exigir, para a saída da moto, um documento de autorização de entrada do Ministério das Terras e Transportes, o qual deveria ter pedido previamente à decisão de fazer entrar a moto no país. Argumentei que me eximisse desse requisito ao que depois de algum esforço aquiesceu. Tinha de, no entanto, apresentar uma declaração da Polícia Nacional Filipina em que não tinha casos pendentes (multas ou outras infrações). Saí já percebendo que tudo estava finalmente resolvido. Ainda em fim de dia, procurei a esquadra próxima para que me dissessem onde conseguir a referida declaração. Indicaram-me um endereço e subi para um tuk-tuk na pressa de chegar antes do encerramento de serviços. O condutor negou-se a fazer a viagem dizendo que era muito longe. Apanhei um táxi. Duas horas de caminho a atravessar a cidade embrulhado no tráfego de tuk-tuks e Jepneys , atulhados de gente que regressava a casa. Chego já noite. Camp Crame em Quezon. O quarteirão da polícia é quase uma cidade. Procuro o Highway Patrol Group – Vehicle Clearance. Espreito pelo guiché o escuro do escritório fechado e desencanto um polícia em calção e chinelo que dá de comer aos peixes de um aquário fluorescente. Bato o vidro e ele, assustado, desperta do espaço de silêncio solitário de fim de dia. Acorre solicito e explica-me que tenho de lá levar a moto para verificarem o número de chassis. Argumento que está avariada e que não a poderia lá levar, mas inflexível diz que só com a moto poderiam passar a declaração.
Agradeço dizendo que voltarei em Junho quando de partida e regresso ao Hotel.
21 de Fevereiro – Missão Kuda
Durmo melhor. Acordo com vista para a vasta baía de Manila e decido procurar a BMW Motorrad em Meralco Avenue, San Antonio, mais hora e meia de trânsito. Os mesmos fastidiosos processos de acesso seja repartição pública ou empresarial, a que acresce a barreira anti corona-vírus. Pistola apontada à cabeça para verificar se o visado está com febre. Apesar da testa queimada do sol e das gotas de suor que escorrem do cocuruto, ganho o autocolante amarelo na lapela que me permite a entrada.
Recebe-me o Diretor de Vendas e Diretora de Marketing. Exponho a minha necessidade de encontrar um espaço alternativo para guarda da minha moto até partida para o Japão. Um amigo guardara a moto desde que chegara a Manila, mas não querendo abusar da simpatia dele, e porque se prolongava a situação, procurava alternativas, entendendo a BMW como o espaço que mais segurança me inspirava e onde podia fazer a revisão necessária antes da partida. Abraçam com entusiasmo o projecto referindo que tudo fariam para corresponder ao pedido.
Lembrando uma possibilidade mais económica para chegar ao Japão, procuro o Manila Yacht Club para saber se algum velejador estaria na disposição de levar a moto até à ilha japonesa de Okinawa a cerca de 1000 milhas náuticas. Deixo os meus contactos para essa possibilidade que explorarei mais tarde.
Caminho pela marginal em fim de dia até Forte Santiago, símbolo da presença de Espanha nas ilhas. À entrada, um casal de noivos para a fotografia. Cruzo-me com crianças- anjos em vestidos de cetim, que se deslumbram fixando os peixes coloridos do fosso na muralha. Faz setenta e cinco anos do fim da ocupação japonesa, uma cruz assinala o lugar em que morreram à fome e sufocados 600 civis e militares americanos e filipinos. Mais à frente, entre paredes em ruínas, um manequim representa José Rizal, o herói nacional, no momento do seu fuzilamento. Alguns metros atrás, um fotografo dispara em contínuo a sua câmara sobre uma jovem que se perfilava contra a parede.
Regresso ao Hotel para descansar. Aqui e ali uma mulher de vida faz-me o convite de rotina. A prostituição já não é o mesmo que encontrei há 30 anos, quando ainda os Estados Unidos tinham activa a Base Naval de Subic Bay e Clark, com os seus contigentes renovados de militares e marujos, a que se juntavam os velhos gordos alemães, australianos e norte americanos, que procuravam Manila como destino de eleição dos programas de turismo sexual, no qual se incluía a prostituição infantil.
Nos passeios, as pessoas vão-se ajeitando para dormir. Não são já tantos como outrora, quando do chão não sobrava espaço para caminhar. Manila melhorou. Não tanto como desejável, mas uma enorme distância separa estes dois momentos de encontro com a cidade.
Arrumo os poucos pertences na minha mochila de trabalho, toda a bagagem que trazia.
Respiro fundo, missão cumprida.
Finalmente uma noite sem preocupações pela Kuda, agora só faltam uns 5 voos de regresso a Timor e uma boleia, sardinha em lata, de Batugadé até Díli, para ultimar o esforço e cansaço acumulado.









































