Kota Kinabalu – Manila

«Como sabiam quem era o nosso comandante, dirigiram os tiros principalmente para ele, de forma que por duas vezes lhe fizeram saltar o capacete da cabeça; no entanto, não cedeu, combatendo nós ao seu lado em número reduzido. Esta luta tão desigual durou cerca de uma hora. Um ilhéu logrou por fim atingir com a ponta da sua lança a cara do comandante, que, furioso, o atravessou com a sua, deixando-a no corpo do outro. Quis então sacar da sua espada, mas tal foi-lhe impossível, porque tinha o braço direito gravemente ferido. Os indígenas que perceberam isso, dirigiram-se todos na sua direção, tendo-lhe um deles infligido um golpe de sabre tão grande na perna esquerda que ele caiu de bruços, e no mesmo instante os ilhéus atiraram-se para cima dele. Foi assim que pereceu o nosso guia, o nosso farol e o nosso conforto. Quando caiu e se viu rodeado pelos inimigos, virou-se várias vezes para nós para ver se nos tínhamos salvado.»

– A primeira viagem de volta ao mundo, António Pigafetta (Tradução livre e adaptada).

No soco altiplano com o Gunung Kinabalu ao fundo. O Kinabalu é o ponto mais alto da Malásia com 4095 m de altitude. Deu para sentir o fresco.
A chuva pesada, essa constante de meio da tarde. Mesmo em época seca, não deixa de dar o ar de sua graça. Bornéu é um dos lugares de maior pluviosidade do mundo.

Travessia do Mar de Sulu, Sandakan, Malásia – Zamboanga, Filipinas [Ferry: 452 km]
Dormida: Beliche do ferry Antonia.

A morte de Magalhães na ilha de Cebu


Saímos à meia-noite, com sessenta homens armados. O rei cristão, seu genro e príncipe e muitos chefes de Cebu, com muitos homens armados, nos seguiram em balangués. Chegamos a Mactan três horas antes do alvorecer. O capitão não quis atacar logo. Preferiu mandar à terra mouro para que dissesse a Cilapulapu e aos seus que, se quisessem reconhecer a soberania do rei da Espanha, obedecer ao rei cristão e pagar os tributos que pedia, seriam considerados amigos. Porém, se não aceitassem isto, iriam conhecer a força de nossas lanças. Os ilhéus não se amedrontaram com nossas ameaças e responderam que também possuíam lanças, mesmo que fossem de bambu ou de estacas trabalhadas no fogo. E suplicaram que tivéssemos apenas uma consideração, não os atacando logo, porque esperavam reforços e seriam muitos mais depois. Isto, no entanto, foi um pedido capcioso, para fazer com que atacássemos imediatamente e caíssemos nos fossos que cavaram entre a praia e suas casas. Esperamos o dia, efetivamente, e saltamos a terra com água até as coxas, pois as chalupas não podiam se aproximar mais devido aos recifes. Desceram 49 e 11 ficaram cuidando das chalupas. Os ilhéus eram mil e quinhentos e estavam formados em três batalhões, que mal nos viram já se lançaram sobre nós com um ruído horrível. Dois batalhões atacaram-nos pelos flancos e um terceiro pela frente. Nosso capitão dividiu a sua tropa em dois pelotões. Os balestreiros e os mosqueteiros atiraram desde longe durante meia hora e causaram pouco dano ao inimigo. Mesmo que as nossas balas e flechas atravessassem as delgadas tábuas dos seus escudos, apenas os feriam levemente, não os matando como nós esperávamos que fosse acontecer. Isto os enfurecia ainda mais. E, confiando na sua superioridade numérica, nos lançavam nuvens de lanças, pedras e até mesmo terra, sendo muito difícil detê-los. Nosso capitão-geral foi atingido por uma lança com ponta de ferro e, para tentar intimidar os inimigos, mandou que colocássemos fogo em suas casas, o que fizemos imediatamente. Ao ver as chamas, enfureceram ainda mais e aumentaram a luta. Alguns correram a apagar o incêndio, enquanto que outros mataram a dois dos nossos na praça. Seu número e sua impetuosidade pareciam aumentar a cada momento. Uma flecha envenenada atravessou a perna do capitão-geral e este determinou a retirada organizada. No entanto, a maior parte dos nossos fugiu precipitadamente, restando com o capitão apenas sete ou oito. Os nativos perceberam que seus golpes na cabeça ou no corpo não nos atingiam por causa das nossas armaduras, porém, que as pernas estavam indefesas. E para elas concentraram suas flechas, lanças e pedras, de maneira tão intensa que não pudemos resistir. Então, nos retiramos lentamente, mas combatendo sempre. Além disto, as bombardas que levávamos nas chalupas se tornaram inúteis por causa dos arrecifes. À medida que nos retirávamos pela água, os nativos iam apanhando as lanças que já haviam atirado contra nós e voltavam a arremessá-las, fazendo isto por outras cinco ou seis vezes. Como conheciam bem nosso capitão, ele se tornou seu alvo preferido. Por duas vezes o derrubaram, mas ele se manteve firme enquanto combatíamos ao seu redor. O combate desigual durou quase uma hora. Um ilhéu conseguiu, em dado momento, colocar a ponta de sua lança na frente do capitão, mas este, furioso, conseguiu ser mais rápido, cravando a sua lança no inimigo, onde ficou presa. Tentou então sacar a espada, mas não pôde por estar gravemente ferido no braço direito. Dando-se conta disto, um dos nativos avançou com um sabre, acertando a perna esquerda, fazendo-o cair de cara na água e arrojando-se por fim contra ele. Assim morreu nosso guia, nossa luz e nosso sustentáculo. Quando viram que haviam abatido nosso capitão, todos os nativos correram para o local onde ele havia caído, o que possibilitou a salvação dos nossos, que conseguiram chegar até as chalupas. Nós poderíamos ter sido socorridos pelo rei cristão e este sem dúvida o teria feito, mas o capitão, longe de prever o sucedido, lhe dera ordens para que permanecesse nos balangués com sua gente, como meros espectadores vendo-nos combater. Quando o rei o viu sucumbir, chorou amargamente. A malfadada batalha se deu a 27 de abril de 1521, que era um sábado, dia escolhido pelo capitão em vista de ter por ele particular afeição. Oito dos nossos e quatro nativos batizados pereceram com ele. No entanto, poucos voltaram aos navios sem ferimentos. Os inimigos perderam quinze homens. À tarde, o rei cristão, com o nosso consentimento, mandou dizer aos habitantes de Mactan que, se devolvessem os cadáveres dos nossos soldados, particularmente o do capitão, lhes daríamos as mercadorias que pedissem. Eles responderam que por nada se desfariam do cadáver de um homem como o nosso chefe e que o guardariam como troféu de sua vitória sobre nós.»
– Relato de António Pigafetta

Morte na ilha de Mactan, “Cosmographie universelle” gravura em cobre de Andre Thevet, (1575).
Representação da Morte de Fernão de Magalhães (Fonte: Portugal, Torre do Tombo, SNI, Arq. Fotográfico, n.º 10296).

Mindoro, mais uma visita ao soldador.
Ilhas Visayas

Jeepney, o transporte público em Manila.