Sunda + Trans-Sulawesy

Primeira Etapa da viagem Díli-Lisboa

Timor – (Mar de Savu) – Ilhas de Sunda – (Mar das Flores) – Celebes – (Mar das Celebes) – Ilhas Sangihe – (Mar das Filipinas) = [2968 Kms]

A viagem de regresso Díli-Lisboa completou a sua primeira etapa, cumprindo um total de 2968 kms de rota, realizados em 28 dias, atravessando as ilhas de Timor, Flores, Sulawesy, Arquipélago Sangihe e os Mares de Savu, Flores, Celebes e Filipinas. Dominantes, as chuvas de monção, castigaram severamente a jornada, obrigando a cuidados e penosos esforços de condução e estoicismo físico, ao longo do percurso sinuoso de montanhas, longas cordilheiras e arribas de costa que marcam a geografia fantasiosa da ilha de Sulawesy.
Por vezes somos dados a perceber que as distâncias têm outra lonjura e medida que não os quilómetros que separam dois pontos em extremos. Pudemos, de facto, compreender, pela experiência de cruzar a interminável trans-sulawesy e os mares da insulíndia, adoçados e submetidos aos horários incertos e desconhecidos de ferry’s cuja existência real ninguém assegura, a dificuldade em realizar esta travessia.

No percurso, vestígios da presença portuguesa, no que esta se mantém viva na língua, nas manifestações culturais e religiosas das Flores (Larantuka e Sicca) e nas fortificações de Sulawesy em Macáçar e Gorontalo.
Nas montanhas do Centro Sulawesy, somos envolvidos na peculiar cultura de Tana Toraja, onde a morte e os ritos funerários são valorizados como referência de roteiro turístico. Integrados nos grupos de turistas indiferentes, somos conduzidos a cavernas onde moram os antigos cujos flash’s dos telemóveis apenas despertam para a vida nas páginas do facebook.
Navegamos as noites do equador, em mares de piratas e radicais islâmicos, sob o céu ondulante de estrelas. Por entre ilhas perdidas e contestadas e vulcões que se listam entre os mais explosivos no anel de fogo do pacífico, sofremos, no convés de um ferry, de um sono impossível e de um inexpectável vento frio do equatorial. Barramos na fronteira invisível e inamovível da burocracia. Não nos deixam cruzar os últimos 60 km que separam a Indonésia da Ilha de Mindanao nas Filipinas. Forçados a retroceder a Sulawesy, afrontamos esse temeroso inimigo do viajante, os funcionários de alfândega e migração. Depois de muito sujeitar a argumentos o nosso propósito, questionando a real existência do Pacto ASEAN de que são membros a Indonésia e as Filipinas, bem como o efectivo domínio e soberania do estado sobre os seus territórios, quando estes não conseguem criar as condições de segurança ao viajante, foi finalmente alcançado, numa negociação directa entre o Consulado Filipino e a Imigração Indonésia, o direito de passagem, que esperamos se efective aquando ao nosso regresso a Sulawesy. Quanto à Kuda (moto), cansada de tanto mar e zangada por ter voltar para trás, por não ter seguido viagem, ficou a gozar descanso no Íbis Hotel de Manado.

Rui Sá Pinto Correia
e Maria José Barbosa

Com partida do monumento do Infante Dom Henrique, frente ao Palácio do Governo em Díli, Timor-Leste, Rui Correia deu início à segunda fase da viagem à volta do mundo em moto, numa ação de reforço dos laços que unem os povos lusófonos e no intento de projectar a afirmação da nova identidade timorense. A viagem, com partida de Díli e chegada a Lisboa, dá continuidade ao projecto que, a partir do Padrão dos Descobrimentos, uniu Lisboa a Díli nas Comemorações dos 500 Anos da Chegada dos Portugueses a Timor. Programara fazer o regresso em etapas, a primeira das quais, na companhia da namorada, até às Filipinas e daí ao Japão. Partiam sem energias, devido à gastroenterite que os assolava há já vários dias, mas decididos a realizar a travessia a que se propuseram.

Antes de chegar à fronteira com a Indonésia (Timor Ocidental), no que parecia um espelho de água, a moto afunda-se numa cratera escondida, fazendo saltar as malas. Estatelados na lama, o começo não era o mais promissor.

A fronteira encontrava-se fechada para almoço, mas, por baixo cancela, transitavam pessoas e mercadorias para os bares da proximidade. Quando reabre, somos barrados pelo oficial de imigração que entendia suspeito o propósito de viagem. Nos nossos passaportes o oficial identificou uma entrada e saída no mesmo dia no que fora uma visita ao enclave de Oecusse. Suspeitando que o meu propósito era o de apenas renovar os nossos vistos, sujeitou-nos a um interrogatório a que o Rui não dava respostas, argumentando que nada havia na lei que o impedisse de entrar na indonésia. A sua teimosia custou uma reserva de hotel em Kupang, tendo de pernoitar a meio do percurso.

Acreditando termos já conquistado o direito ao descanso e a um merecido banho, vemos o quarto ser invadido por oito elementos da policia que realizavam rusgas no hotel. O novo presidente indonésio aprovara uma política de costumes que interditava a ocupação de quartos de hotel senão por casais em matrimónio e, ali, naquele lugar recôndito, onde o turista ainda era ainda visto como um assombro, levavam a lei à letra. Insurgimo-nos de tal modo que os mesmos, envergonhados, logo se desfizeram em pedidos de desculpas.

Continuamos viagem pela beleza luxuriante da paisagem que nos incita a refletir sobre a natureza de Deus, qual seria o seu plano ao colocar o cérebro humano a traduzir luz em cor para seu próprio deleite. Dois dias mais tarde embarcamos num ferry para a ilha das Flores.

A travessia foi feita em condições extremas. O cheiro a urina ácida dos animais que viajavam no porão, intensificado pelo efeito do sol, invadia o barco ferindo os pulmões e letargiando o cérebro. Na vida temos de nos embriagar de tudo, efeito que não se consegue dos livros. Fugidos para a proa do navio, logo que o céu se pintou de vermelho, esgueiramo-nos para junto da cabine da tripulação. Foi-nos permitida a estadia. Acabámos por adormecer no chão sob uma belíssima abóbada celestial.

Acordamos no porto de Laratuka, ilha cristã das Flores, com o som invasor da chamada para a mesquita. A essa hora da madrugada, a tolerância religiosa revela ser um pouco mais difícil de alcançar.

Em Maumere seguimos para os escritórios da PELNI para comprar os bilhetes do Ferry que nos conduziria até Macáçar, na ilha de Sulawesy, as antigas Celebes.

Ainda nas Flores, a pouco mais de 350 km de Dili, não tínhamos ainda descortinado como prosseguir viagem. Sabíamos que a travessia do Anel de Fogo do Pacífico não seria fácil. Por muito que pesquisássemos, não encontráramos, até então, uma ligação entre as ilhas indonésias e Mindanao, nas Filipinas. A noticia da falência da empresa de Ferry, que pretendia fazer a ligação entre Sulawesy e Mindanao, deixara-nos sem soluções. A guerrilha no sul das Filipinas em Mindanao, a Frente Moro, o Movimento Abu Sayef e os piratas bugis do arquipélago de Sulu tinham recentemente incrementado a sua atividade. O sequestro de tripulações dos ferry’s que fazem as ligações com aquela ilha muçulmana, onde opera também a Al Qaeda / Isis, era do nosso conhecimento. Em face da insegurança vigente, a navegação no Mar de Sulu e Mar de Celebes estava interdita. A travessia pela ilha de Celebes (Sulawesi), Indonésia, revelar-se-ia progressivamente inoportuna. O percurso alternativo seria atravessar para Borneu/Kalimatan e, em Sandakan, Malásia, apanhar um Ferry para Zamboanga, Mindanao, nas Filipinas. Mas também este encontrava-se suspenso pela insegurança na área.

Havia a possibilidade de fazer a Trans-Kalimatan, 3500 km de estrada e lama até Sabah, Malásia, para depois passar à ilha de Palawan nas Filipinas, ligação que se encontra igualmente suspensa.

O almoço decorreu sob o prenúncio de uma realização mal sucedida.

Enquanto esperávamos que o barco aportasse e nos desse um destino, decidimos cruzar a ilha em direção à costa sul para investigar o paradeiro da Regalia do Reino de Sikka.

A presença Portuguesa no arquipélago de Sonda, desde 1511, fez-se permanente e influente, especialmente nas ilhas das Flores, Solor e Timor. Sikka esteve sob administração portuguesa até 1851, altura em que o novo Governador de Timor, Solor e Flores, Lima Lopes, com uma administração pobre, aceitou, sem consultar Lisboa, trocar as Flores e as ilhas próximas pelo enclave holandês de Maubara e 200.000 florins (antiga moeda holandesa). No espaço-tempo que demorou a notícia a chegar ao conhecimento de Lisboa (a ida e volta poderia levar entre 2 a 4 anos), já Batávia (atual Jakarta) enviara as suas forças para ocupar território. A metrópole demite Lopes Lima, que é chamado ao Reino, mas a decisão torna-se irrevogável. Na viagem de regresso, o governador demitido enlouquece e morre a bordo. Os Reis de Sikka, Larantuka e demais reinos das ilhas que, com orgulho, se diziam portugueses, não aceitaram de bom grado a troca efetuada e, a despeito da imposição holandesa, por muitos anos hastearam nos seus reinos a bandeira lusa.

Ainda durante a administração portuguesa nas Flores, um dos Reis de Sikka, Dom Alexius Ximenes da Silva, desolado com a violência e o número de mortes entre o seu povo, viajou até Malaca, principal praça portuguesa no sudeste asiático, em busca de paz e vida eterna. Já em Malaca, foi-lhe dito, pelos governantes portugueses, que o lugar que procurava não existia neste mundo, apenas no céu. No regresso a Sikka, Dom Alexius Ximenes da Silva, batizado na fé Cristã, é-lhe oferecido, em retribuição pela sua fidelidade a Portugal, um tesouro, que conferiu à família um estatuto de hegemonia. Esse tesouro, que os locais chamam “regalia”, composto por um capacete, dois colares com esferas, um cetro, entre outras peças, passou de geração em geração numa caixa na casa da família do Rei de Sikka.

Segundo o relato que colhêramos de um dos habitantes de localidade, orgulhoso de seu nome “Gomes”, de origem portuguesa, o Rei tinha sido portador de um outro tesouro, o da fé cristã. Pelo desejo de alcançar a vida eterna e a redenção, tinha-lhe sido oferecida uma Bandeira, o Menino e a Cruz de Cristo, que doravante permaneceriam (até hoje) como símbolos de devoção do povo de Sikka.

Na estrada entre Sikka e Maumere, um desconhecido de nome Pereira, interpelou-nos para nos convidar ao descanso e a retemperar forças com uma água de coco que o irmão colheu no alto do coqueiro de sua propriedade. Por baixo do coqueiro, a campa da família. À semelhança dos timorenses, as famílias de Sikka sepultam os seus mortos no jardim da casa.

Voltámos de Sikka com a noticia que a sede do reino se tinha mudado para a capital Maumere, de onde partíramos e estávamos alojados. A casa de família do descendente do rei de Sikka, situava-se, precisamente, na avenida do hotel onde estávamos acomodados.

Recebeu-nos o filho mais novo, Nong da Silva, que nos informou não ser possível ver a “regalia”, património muito estimado, cuja exposição teria de ser autorizada pelo Presidente da constituída Congregação dos Familiares dos Reis das Flores, que se encontrava ausente. Foi-nos facultada a possibilidade de visitar a casa de família onde se encontravam expostas fotos de família, desbotadas pelo tempo, e pinturas dos Reis de Sikka, que orgulhosamente ostentavam o capacete e demais acervo que constituía o tesouro.

Em jeito de graça, o varão herdeiro do Reino, diz-nos que gostaria de poder casar uma portuguesa, assegurando, desta forma, a continuidade na linhagem mestiça do sangue luso no reino de Sikka.

Ao décimo oitavo dia de viagem embarcamos a Kuda (moto) para Macáçar (Ilhas Celebes/Sulawesy).

Decidimo-nos a arriscar atravessar toda a Ilha de Sulawesi, dois mil quilómetros de curvas e chuva diluviana, na esperança de encontrar uma solução em Manado ou Bitung. O tufão Kay-Tak dominava o clima na Insulíndia com chuvadas torrenciais.

No desembarque em Macáçar, um manto de ferrugem, efeito da exposição à chuva e erosão marítima, cobria a Kuda.

Saímos do porto em direção à garagem da BMW em Macáçar. Tomando a autoestrada para a área limítrofe da cidade, logo fomos intersectados e orientados para o posto da polícia localizado à saída da portagem. Na indonésia não é permitido às motos circular nestas vias. Os polícias de trânsito recebem-nos com cortesia e prontamente se oferecem para nos escoltar até ao concessionário BMW que infelizmente estava fechado.

Ao décimo quinto dia de viagem, partimos, sob uma intensa chuvada, em direção a Manado, viagem que se revelou penosa e lenta. O percurso intercalava a imersão na vigorosa e verdejante floresta com a projeção de exuberantes horizontes abertos, por entre montanhas vestidas de verde, e de lagoas e extensos arrozais.

As mesquitas sucedem-se intercaladas com Igrejas de outras religiões. A guerra religiosa erige-se em torno de edifícios anacrónicos de um gosto discutível, não cedendo lugar às bibliotecas, aos teatros, aos cinemas ou a um outro qualquer espaço cultural. Nos terraços e varandas de algumas casas locais, elevam-se muros de colunas que ladeiam as pequenas travessas das zonas residenciais e emitem ondas ruído ensurdecedores. O frenesim sonoro de Sulawesi entorpece os pensamentos e silencia a paradisíaca natureza.

A floresta fresca e húmida de montanha, onde crescem espécies florestais incomuns referenciadas por Wallace na sua obra “The Malay Archipelago”, mantiveram-nos cativos durante algum tempo na sua beleza. A marcha deteve-se mais vezes do que seria expectável e desejável. A natureza excede-se com alguma frequência, e a sua grandiosidade mantem-nos cativos.

Quando estamos em movimento mais facilmente podemos perceber as fraturas da percepção. O cenário, quando colocado em movimento, torna-se numa imensa tela indistinta, seja no registo do aprazível seja no do alheamento. Se por vezes instalamos o olhar na paisagem que nos olha, não menos frequentes são as vezes que nos recolhemos nos nossos pensamentos. De tempos em tempos somos inquiridos pelas formas, seja pela desproporção, que nos interpela e comunica-nos uma grandeza que excede a mesura, seja pela composição, que nos acolhe na sua disposição e organização. Contudo, a velocidade nem sempre permite o tempo necessário para que a impressão passe a percepção.

A trans-sulawesy atravessa a linha do equador. O calor da selva circundante invade os warung’s (restaurantes) de berma de estrada. Enquanto o peixe grelha, o viajante tem uma esteira disponível para repousar o corpo do muito cansaço acumulado a cada curva e montanha.

A curiosidade face ao estrangeiro é uma constante em todas as localidades. Não é um interesse constrangedor, pelo contrário. Os indonésios acolhem-nos no seu modo de aproximar. Neles não se encontra um olhar inquiridor. Observam-nos discretamente e saúdam-nos sempre.

Forte Otanaha

Na costa norte de Sulawesy admiramos a coragem dos portugueses que nos antecederam numa visita aos fortes portugueses de Otanaha e Orange, em Gorontalo. Nestes, de visitantes passamos a ser o foco de interesse dos alunos que por lá andavam. Não conseguem associar as nossas feições a uma nacionalidade. Podíamos afirmar que vínhamos de Marte, que eles acreditariam. Obtivemos sempre a mesma reação quando afirmávamos a nossa proveniência. Ao “Somos Portugueses” seguia-se, peremptoriamente, “Ó, Cristiano Ronaldo!”. A história de Portugal, a que as ruínas dos antigos fortes portugueses davam testemunho, tinha sido silenciada. Mais de oitocentos anos de história reduzidos a um só rosto, ao do Cristiano Ronaldo.

A paisagem que dista Rantepao de Palopo é marcada por uma complexa e retalhada composição arquitectónica, que demarca distintos espaços de ideologia religiosa. A representar as mais de trezentas diferentes etnias e as principais religiões monoteístas, elevam-se aos céus, a acompanhar os picos das montanhas cobertos de nuvens, por entre os vales esmeralda-verdes e seus arrozais dispostos em terraços, ora pórticos franqueados de elementos orgânicos das distintas religiões birmanes, javanesas e hindus ora minaretes, almenaras, abóbadas, torres e pilares, que em muitos se assemelham a mísseis de ogivas, de onde os cânticos ou sinos bradam a clamar por oração, em troca de proteção, ao Deus islâmico, protestante ou católico romano. Alheios a tudo isso, os búfalos de água passeiam-se de terreiro em terreiro e banham-se nas águas lodosas dos arrozais.

No centro da ilha, a região de Tana Toraja. Nesta, a morte e os ritos funerários têm particular interesse turístico-museológico. Na aldeia de Lemo, aos mortos é dada uma sepultura em grutas escavadas nas arribas das formações rochosas que limitam os arrozais onde os vivos labutam sob a presença atenta dos que os antecederam. Representações quase perfeitas, esculpidas em madeira, perfilam-se em varandas, frente às aberturas onde se guardam os sarcófagos, como quem vigia de cima o quotidiano dos vivos. Turistas indonésios e chineses fazem pose junto a estátuas em madeira que representam pessoas falecidas. Na escarpa, plataformas seguram urnas sobre o vazio.

Também em Londa, uma serie de grutas extensas guardam os restos mortais dos falecidos habitantes da aldeia. Guiados por locais munidos de lâmpadas de querosene, hordas de turistas nacionais fazem poses fotográficas e selfies sorridentes junto aos caixões em exposição.

Já em Manado, a urgência de assegurar a travessia para as Filipinas não permitiu a entrega ao descanso, pelo que partimos para Bitung no dia seguinte.

Entre subidas e descidas que desenham a costa do estreito de Lembeh, o verde aperta a estreita estrada que margina a ponta nordeste de Sulawesy, em cenários de deslumbramento permanente, surgindo aqui e ali, por entre a vegetação, baías e ilhas-ilhéus. Do outro lado do estreito, a ilha de Lembeh, que a curta distância acompanha a costa da ilha maior. No Hotel, uma jovem recepcionista prontifica-se a ajudar-nos a estabelecer os contactos necessários ao sucesso da nossa jornada. Na reunião com o Diretor do porto de Bitung, este mostra-se confiante que não teríamos obstáculos de monta ao nosso propósito, estando mesmo convicto que junto dos pescadores locais da ilha de Moreh, encontraríamos o apoio necessário à travessia dos 60 Kms que a separam da Ilha de Mindanau, nas Filipinas. Confiantes, partiríamos, no dia seguinte, no Sabuk Nusantara 38. Alugamos o camarote ao 2.º oficial pelo preço de 100 dólares. A este valor somar-se-ia o preço do Bilhete da travessia – trinta mil rúpias (2 EUR) por pessoa e cento e vinte mil pela Kuda. Apressadamente, dirigimo-nos ao Kantor (Escritório) da Imigrasi de Bitung para carimbarmos o passaporte antes da partida. Na parede, a estatística dos registos anuais de entradas e de saídas de estrangeiros. Apenas vinte e três pessoas tinham cruzado a fronteira no ano transato. Como se justificava o enorme investimento do estado em infraestruturas e recursos humanos para controlo da migração? A sede provincial de imigrasi em Manado, que visitaríamos mais tarde, era absolutamente despropositada. Decidimos prosseguir com a nossa demanda junto à Polícia do Porto de Bitung e ao Customs Service. Embora comedidos, sentíamo-nos efusivos com a possibilidade de sermos os primeiros estrangeiros a realizar a travessia entre a Indonésia e as Filipinas por terra (mar). Ficava, somente, a faltar a garantia que os serviços de migração carimbariam os nossos passaportes. Foi neste estado de ansiedade que celebrámos a passagem de ano e entrámos em 2018.

Foi-nos informado que o último Serviço de Migração para estrangeiros, apesar do território indonésio se estender para além deste, seria em Sanghie, Tahuna, a principal ilha do arquipélago que medeia entre Sulawesy e as Filipinas. Teríamos, então, de desembarcar em Tahuna para, junto aos Serviços de Migração, carimbar os nossos passaportes. Todos os processos pareciam que iam ser assegurados por aqueles serviços. A noite foi passada em claro. Ao lado do Hotel Summer, onde pernoitávamos, uma barraca debitava toneladas de decibéis 24 horas do dia.

Pelas duas horas da tarde do terceiro dia de 2018, embarcamos no Sabuk Nusantara 38. O navio de carga e passageiros a que chamavam cruzeiro, largou porto somente às 17 horas, rumando a norte pelo estreito de Lembeh. Subimos à proa do navio. O vento de fim de tarde e maresia pacificava-nos da vertigem dos dias que passáramos e do cansaço que o corpo começa a evidenciar. De um e de outro lado desfilavam as margens alcantiladas de um verde que descia até ao sal das ondas e tocava as praias e enseadas de Lembeh e cabo norte de Bitung. Neste estreito, cruzavam-se, em desafio, cargueiros e navios tradicionais que singravam em busca de oceano ou de abrigo do cais. Juntaram-se à conversa jovens Filipinos que procuravam por estas rotas uma oportunidade de emprego. A conversa alongou-se, ao som de uma guitarra, mais umas milhas de mar. Um deles era originário da Ilha de Mindanao. O seu testemunho tranquilizou-nos. Ao contrário dos muitos relatos que ouvíramos, e do muito que encontrávamos de informação na web, dizia-nos que a região era segura. Na amurada do navio cruzo-me com um curioso que, sabendo do nosso propósito de chegar à ilha de Marore, de imediato estabeleceu contacto telefónico com pescadores residentes que podiam assegurar a nossa travessia.

A ilha de Marore, atualmente sob administração Indonésia, é a ilha mais próxima das Filipinas, distando apenas 60 Kms de Mindanao. A soberania desta pequena ilha, de apenas 2,3 kms de comprimento e  1300 habitantes, continua a ser contestada desde os tempos coloniais. Os laços de parentesco e as trocas entre os habitantes da ilha e os seus vizinhos filipinos de Mindanao, tornaram permanente o intercâmbio e visitas mútuas, para além das formalidades e das fronteiras, num regime que só muito recentemente ficou ancorado por um acordo entre os dois governos. Para este efeito é conferido a todos os naturais da ilha de Maru um passe autenticado pelo representante da imigração Filipina e reconhecido pelo Kantor Imigrasi da ilha, que permitirá o livre transito entre estas ilhas para os locais.

Recolhemo-nos à cabine cedida pelo 2.º oficial do navio e, para nosso conforto, pudemos ter um vislumbre de como seria viajar a bordo de um cruzeiro no pacífico.  Depois de uma escala breve pela noite na ilha de Thulandang, avistamos a ilha de Sangie já pela madrugada. No fundo de uma baia estreita, a principal povoação da ilha, Tahuna. Aportamos e, de imediato, nos dirigimos ao kantor imigrasi para, conforme indicações e nosso propósito, carimbarmos o nosso passaporte, admitindo que o mesmo não seria possível na ilha de Maru.

O oficial da Imigrasi, perante a nossa insistência, e querendo demonstrar vontade de ajudar, efectuou contacto directo com o seu superior em Manado. A resposta foi imperativa, não nos era autorizado prosseguir.

Numa última tentativa, e sabendo da realização de operações navais conjuntas entre a marinha de guerra indonésia e Filipina, num combate à pirataria bugi e ataques do movimento Abu Sayaf nos mares de Sulu, Celebes e Filipinas, propusemo-nos realizar uma visita a um dos navios de guerra que participava nas operações e que se encontrava acostado no porto. O propósito era sensibilizar o comandante para, num gesto de boa vontade e fugindo a todos estes trâmites burocráticos, nos concedesse a autorização para os acompanhar, com a nossa inseparável amiga kuda, até Mindanao. Como argumento, o Rui testemunhou o apoio que o Comissário Provincial do Baluchistão que prestara uma escolta para o acompanhar por 3 dias e 1200 kms de deserto, travessia por território inseguro, durante a viagem Lisboa-Dili. Não logramos esse propósito.

De regresso ao Kantor da Imigrasi as ordens eram claras, imponha-se-nos embarcar no Ferry Saint Mary de retorno a Manado. Voltámos ao caís desolados. Neste, um batalhão da policia de Tahuna embarcava num velho Ferry. No cais, descurando o ambiente marcial que se impunha, os oficiais e soldados partilham de uma atmosfera festiva, convidando à aproximação dos vendedores ambulantes que se instalaram no centro das operações para comercializar água, sumos, pop-min, cigarros e barritas de chocolate. De cima, um drone filmava estas mesmas movimentações. Dir-se-ia que estaríamos na preparação da ofensiva militar sobre Dunquerque. O comandante das operações, ao reparar na presença do único estrangeiro que observava a eficaz operação que conduzia, acercou-se para explicar o objetivo da missão a que se propunham. Todo aquele dispositivo se destinava apenas a reforçar o comando policial da ilha vulcânica de Siau, que seria palco da visita do comandante da província de Norte do Sulawesy. A visita do comandante assinalava a preocupação das autoridades face à iminente ameaça de explosão do vulcão, em actividade, e de forma como esta podia afetar a vida daquelas populações.

Quanto ao Saint Mary, era um barco novo com a elegância de um paquete. O seu interior nos desiludiria. Tinha a aparência de um barco negreiro como os que outrora navegavam da Africa para as Américas. Mais de mil beliches, em fileiras intermináveis, cobriam todo o convés. Já instalados numa das camas, num misto de empatia e frustração, em meio dos nossos parcos pertences, fomos surpreendidos pela visita inesperada dos dois oficiais da imigrasi que vinham confirmar a nossa partida.

A noite, longa e ventosa, fedia a pop-min, nudles, suor, fraldas. Arrastamo-nos, com os colchões para a proa do navio, desalojando assim os inúmeros vermes e baratas que se escondiam entre o estrado e o colchão. Um vento gélido, muito pouco próprio do equador, varria sem piedade a proa onde nos acomodávamos. Deitamo-nos à conversa com um passageiro que nos dava a saber que os pescadores das ilhas de Maru e de Miangas, da Indonésia, e os de Balut e Ulaniban, das Filipinas, trocavam as bandeiras da nacionalidade dos seus barcos para pescarem ilegalmente em mares do país vizinho. Com frequência, as patrulhas da polícia marítima de ambos os países abrem caça a estes pescadores, de que decorrem alguns acidentes. Esta questão seria mais um obstáculo a acrescentar aos já problemáticos movimentos terroristas e independentistas que agitam a região. Acabámos por pernoitar no rebordo da proa, em cima das cordas de amarra do navio. Despertámos do nosso sono de coma, a meio da noite, com as vozes e risadas dos marinheiros que tentavam lançar as cordas ao cais da ilha de Siau. No cais expectantes, os habitantes aguardam os barcos, como náufragos no tempo. A ilha encimada pelo cone vulcânico, cuja chaminé saía uma nuvem de vapores sulfurosos, revelava-se cenário assombroso, iluminado apenas pela luz projetada dos faróis dos barcos que se encontravam no cais. O fantasma de Krakatoa ainda paira no imaginário coletivo.

Chegados a Manado, cansados e com frio, tomámos um revigorante banho. O corpo denunciava os maus tratos da noite. No entanto, não tínhamos tempo para descanso. Dirigimo-nos ao Kantor da Imigrasi à procura do Diretor dos Serviços, de quem recebêramos as ordens de regresso pela voz do oficial dos serviços de Tahuna. Mais uma vez, se explicou e sensibilizou para a necessidade de encontrar uma solução que viabilizasse a passagem para as Filipinas e cumprir o propósito da viagem. No decorrer das conversações, cinco minutos antes da hora da oração da tarde, ausentou-se para rezar, deixando o seu adjunto em sua substituição. A sua condição de católico não o sujeitava às obrigações religiosas dos muçulmanos. Cumprida a obrigação religiosa, retomámos as conversações. Num impasse, e sem que alguma solução nos fosse apresentada, Rui questionou a real e efetiva existência do Pacto Asean de que eram membros tanto as Filipinas como a Indonésia. Face aos impedimentos que se colocavam ao trafego de bens e pessoas entre os dois países vizinhos, este pacto revelar-se-ia ao mundo uma farsa. Seria esta a imagem que queriam passar ao mundo, questionava o Rui, pois este seria o seu testemunho. Realizada metade da circum-navegação terrestre, o Rui encontrara naquela região o único ponto de conexão inacessível. A ligação entre povos e nações, no percurso de viagem à volta do mundo que fazia, teria sido quebrada. Após um breve momento de silêncio, o Director da Imigrasi prontificou-se a encontrar uma solução. Reunir-nos-íamos, no dia seguinte, no consulado das Filipinas de Manado, para o efeito. Em direto do Consulado, via telefónica, o Oficial responsável pelos Serviços de Imigração filipinos destacado em Maru comprometeu-se a deixar-nos passar, sendo que, no entanto, não nos carimbaria o passaporte. A entrada nas Filipinas continuava, pois, a ser um problema, uma vez que o serviço de imigração para estrangeiros encontrava-se na ilha de Mindanao, e não em Maru. A passagem permitida por Maru não impedía que entrássemos ilegalmente nas Filipinas.

De regresso, cansados, doentes e com a data de expiração da validade do visto a aproximar-se (faltavam apenas 5 dias), decidimos suspender a travessia para uma outra ocasião, firmando, entretanto, as condições e contactos necessários para a sua realização efetiva. Decididos a regressar a Portugal, na ânsia de ver a família, deixámos Kuda ao cuidado do gerente do hotel Íbis em Manado.